Problemas na saúde do motorista deixaram mais de 200 mil feridos e 12,4 mil mortos, entre 2014 e 2019, no Brasil

Cerca de 250 mil acidentes de trânsito registrados em rodovias brasileira, nos últimos cinco anos, tiveram como causa principal ou secundária questões relacionadas à condição de saúde dos motoristas, no momento da ocorrência. Esse volume de colisões deixou como saldo 208.716 feridos e 12.449 mortos. Essa conclusão é de especialistas da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), que analisaram dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) coletados entre janeiro de 2014 e junho de 2019.

Os especialistas, com base na catalogação da PRF, agruparam os acidentes em grandes grupos, sendo que as categorias mais recorrentes incluem falta de atenção à condução, ingestão de álcool, condutor dormindo, mal súbito, restrição de visibilidade e ingestão de substâncias psicoativas. Para a Abramet, essas situações denotam quadros diretamente ligados ao quadro de saúde dos condutores, como déficit de atenção (permanente ou circunstancial), visão comprometida, distúrbios de sono e comprometimento motor ou de raciocínio.

Em termos globais, as informações contemplam apenas os sinistros registrados nas estradas e rodovias sob supervisão da PRF. Não foram contabilizados transtornos em colisões que aconteceram em pistas, ruas e avenidas dos centros urbanos. Com isso, avaliam os especialistas da Abramet, o quadro poderia ser até pior, pois um número importante de colisões não entra nas estatísticas.

Fonte: Polícia Rodoviária Federal (PRF). Elaboração: Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET). *Até  junho 2019

Situações clínicas – A falta de atenção ao volante, que, na avaliação da Abramet, pode ser consequência de situações clínicas importantes (fadiga, stress, cansaço, déficit de atenção ou comprometimento do raciocínio) responde por 190.375 dos acidentes catalogados, ou seja, 76% do total registrado no período. Apenas essa categoria responde por 153.517 feridos e 7.749 mortes.

Na sequência, vem a ingestão de bebida alcoólica, que afeta a saúde do condutor ao retirar-lhe reflexos e capacidade de reação. Entre 2014 e junho de 2019, foram registrados pela PRF um total de 34.608 acidentes nas rodovias onde esse fator foi considerado uma das causas. Do volume de colisões, houve encaminhamento de 31.697 vítimas com ferimentos leves ou graves e o registro de 2.340 óbitos.

A terceira condição de saúde que mais aparece no levantamento é o sono, resultado de transtorno específico, burnout, stress ou fadiga, dentre outros fatores. Foram 20.236 acidentes registrados onde o condutor efetivamente dormiu ao volante, causando 1.788 mortes e deixando 19.450 feridos, entre 2014 e 2019.

Completam o trabalho, o chamado mal súbito (crise cardíaca, ataque epiléptico, convulsão, etc.), com um total de 1.980 acidentes; a visão reduzida, com 1.659 ocorrências; e o efeito de entorpecentes sobre o condutor, com 199 casos. Juntos, eles respondem por 572 mortes no trânsito e o encaminhamento de 4.052 vítimas de colisões para atendimento médico.

Fonte: Polícia Rodoviária Federal (PRF). Elaboração: Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET). *Até  junho 2019

 

Fonte: Polícia Rodoviária Federal (PRF). Elaboração: Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET). *Até  junho 2019


Atenção das autoridades
– “Trata-se de um quadro grave que precisa da máxima atenção das autoridades. As rodovias brasileiras dependem de controle para evitar que esses números aumentam. Para tanto, é preciso apostar em campanhas de conscientização; na fiscalização; e a prevenção no momento de conceder a carteira de motorista, ao impedir que pessoas com perfil inadequado sejam consideradas habilitadas”, ressaltou o diretor de Relações com Federadas da Abramet, Antônio Meira Júnior.

As informações surgem em meio à polêmica sobre o afrouxamento do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Conforme alertou Meira Júnior, “esses dados apontam para a importância da saúde do condutor e o seu impacto sobre a qualidade e segurança no deslocamento das pessoas e do trânsito de forma geral”. Esse cenário, avalia o especialista, também coloca a saúde do condutor como aspecto a ser considerado no âmbito de ações e políticas públicas destinadas a redução dos indicadores e reforça o estímulo à realização periódica do Exame de Aptidão Física e Mental pelo motorista, mecanismo considerado decisivo para a redução da mortalidade no trânsito.