Departamento Científico da Abramet deve lançar novas diretrizes para o trânsito em 2020, anuncia Flávio Adura

O desejo de encontrar respostas para temas voltados à defesa e à preservação da vida no trânsito o levaram para a pesquisa científica dentro da medicina de tráfego. O pleno exercício dessa vocação o tornou um dos mais respeitados e reconhecidos especialistas brasileiros, referência para todos os atores associados à especialidade: governos, entidades médicas e academia. Com essa bagagem, Flávio Emir Adura reassume a direção do Departamento Científico da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), área que já comandou em outros ciclos, com o objetivo de produzir novos avanços. 


Integrante da gestão empossada em janeiro, ele planeja enfrentar os novos desafios colocados para o médico de tráfego, como os efeitos do uso de drogas e do telefone celular sobre a segurança do trânsito. “Apresentaremos diretrizes novas, em 2020, ampliando e atualizando o arcabouço técnico-científico que orienta nossos especialistas”, avisa. Na entrevista, a seguir, Adura adianta os planos para essa gestão da Abramet.
 

Como o senhor avalia o momento atual da medicina de tráfego nesse momento?

FEA - Eu percebo que a medicina de tráfego alcançou reconhecimento notável da sociedade brasileira, do governo, dos organismos, mas ainda há uma necessidade importante de que o especialista seja reconhecido por exercer a especialidade na sua integralidade, com todos os seus conteúdos, e por trabalhar no sentido de usar a medicina de tráfego com a missão da especialidade, que é preservar vidas no asfalto. Nesse momento, estamos com um projeto de lei que discutiu muito a importância da especialidade, do exame de aptidão, da validade do exame. O Departamento Científico da Abramet terá um foco muito grande na formação de novos especialistas, através da residência médica e das faculdades de medicina. Para aqueles que já são especialistas, teremos reciclagens, jornadas e novos conteúdos para que pratiquem os melhores procedimentos preconizados pela Associação.

 

O senhor considera que a proposta do PL nº 3267/2019, que modifica o Código de Trânsito Brasileiro, questiona a medicina de tráfego?

FEA - A medicina de tráfego não está em cheque. O que está sendo apresentado são contestações sobre o exame de aptidão física e mental. A medicina de tráfego é muito maior que isso: o exame é um dos procedimentos da especialidade. O momento é difícil pelo desconhecimento pelo governo e pela sociedade sobre a importância do exame. Temos que reconhecer que o momento é difícil, pois muitos que realizam o exame, na maioria não especialistas, não conseguem demonstrar sua importância para quem decide. É um momento difícil, mas importante, pois podemos melhorar a qualidade do exame, desde que seja realizado por um especialista qualificado e atualizado.

 

Qual sua expectativa em relação ao PL nº 3267?

FEA - Minha expectativa é que seja aprovado, na íntegra, o parecer do relator, pois representa a vontade do Parlamento, da Comissão que escutou a sociedade científica por longos seis meses. O parecer foi redigido por um relator médico, que teve a sensibilidade de aperfeiçoar o projeto enviado pelo presidente, de forma a garantir avanços para desburocratizar defendendo o direito à vida. Será um desapontamento muito grande se perdermos o trabalho que foi feito, juntando toda a coletividade que se preocupa com o trânsito, para obter avanço e não retrocesso. Um Código mal feito, ou escrito sem o devido cuidado, vai gerar mais sofrimento e perda de vidas humanas.

 

Qual a importância do Departamento Científico e da sua atuação para a Abramet?

FEA - O Departamento Científico é o que dá subsídios para a boa prática da medicina de tráfego, o que se reverte em prol da sociedade, da saúde e da segurança no trânsito. No passado, essa área da Abramet elaborou diretrizes de altíssimo nível que viraram leis, como a Lei da Cadeirinha, a Lei Seca e as regras para a habilitação de pessoas com deficiência. Nessa gestão, a ideia é criar novas diretrizes que possam balizar a atuação do especialista e, ao mesmo tempo, reduzir a morbimortalidade no trânsito.

 

O senhor poderia adiantar quais assuntos serão trabalhados?

FEA - Há um conjunto de temas que precisam ser bem documentados e avaliados. Um deles será a telefonia celular no trânsito, que traz grande risco de acidentes e não temos, hoje, sua real dimensão. Essa é uma das primeiras diretrizes que vamos elaborar, para ser divulgada no primeiro trimestre de 2020. Também não estamos conseguindo reduzir os indicadores de acidentes com motociclistas, que representam a maior prevalência atualmente. São eles quem mais fazem crescer as estatísticas de morbimortalidade no trânsito. Outra diretriz que vamos fazer é sobre equipamentos de proteção. Hoje o motociclista usa capacete e óculos, a máscara facial. Existe uma série de novos equipamentos que podem ajudar na proteção. Essa é uma diretriz que já está pautada.

 

Algum outro tema?

FEA - Já temos uma diretriz sobre drogas, feita em outro momento, quando não existiam dados suficientes para avançar nos procedimentos que o médico pode fazer para a redução de acidentes provocados pelo uso dessas substâncias. Esse é outro tema que deverá merecer nova diretriz, atualizando o que está em vigor. As diretrizes precisam ser atualizadas. Essa norma exige atualização, pois existem novos dados, novos tipos de droga. Quando fizemos a diretriz nos preocupava muito o uso de anfetaminas. Hoje as anfetaminas foram substituídas pela cocaína, que tem mais fácil acesso e risco maior. Queremos estudar a melhor maneira de o médico de tráfego contribuir para a inibição do uso de drogas pelo motorista no Brasil.

 

O que o médico de tráfego deve esperar da sua gestão?

FEA – Temos 40 anos de atuação. Quase a totalidade dos especialistas conhecem o trabalho do Departamento Científico da Abramet e acredito que tenham interesse em acompanhar as atualizações e se reciclarem. Eles podem esperar por disponibilidade total para a informação e a reciclagem. Precisamos deles e eles de nós em uma sólida parceria em prol da vida no trânsito.